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21/09/2026

Varejo cai mais que o esperado em julho e reforça desaceleração

Publicado em 16/09/2026

O resultado negativo do varejo em julho é reflexo de uma atividade econômica em ritmo mais fraco na passagem do primeiro para o segundo trimestre, na visão de economistas. Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (15), o volume de vendas no varejo veio abaixo do esperado pelo mercado em julho, com queda de 0,8%. A mediana apurada pelo Valor Data junto a 18 consultorias e instituições financeiras apontava recuo de apenas 0,1%.

“Olhando apenas para o varejo restrito, tivemos queda em abril, dois resultados em sequência próximos de zero e voltamos a cair em julho. A atividade está dando sinais de desaceleração, o que já era esperado. É uma sinalização de atividade mais fraca”, avalia Rodolpho Tobler, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Na visão de Tobler, o principal vilão do varejo é justamente o ambiente macroeconômico de 2026. Mesmo com juros em queda desde o início do ano, a Selic segue em patamar altamente restritivo (14% ao ano) e é apontada como a principal responsável pela desaceleração da atividade econômica.

“Também temos visto famílias endividadas e inadimplentes. Então, o orçamento das famílias, mesmo com um mercado de trabalho favorável, é de famílias endividadas e com orçamento apertado”, explica Tobler.

O economista aponta também a disseminação desse cenário entre diferentes atividades econômicas, com a maioria dos segmentos em queda, além de desaceleração forte na maioria dos Estados. Em julho, o comércio varejista caiu em 20 das 27 unidades da Federação.

Segundo o IBGE, o indicador de julho foi puxado negativamente pelos setores de hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,2%); tecidos, vestuário e calçados (-2,7%) e livros, jornais, revistas e papelaria (-4,2%). As atividades que apresentaram variação positiva foram combustíveis e lubrificantes, com alta de 0,3%, e artigos farmacêuticos, com alta de 0,6%.

“De fato, as atividades que fazem parte do dia a dia das pessoas, como combustíveis e supermercados, estão um pouco menos pior. Quando a gente olha para bens essenciais, eles acabam tendo uma resiliência maior. As pessoas mudam de marca, mas não dá para evitar comprar remédio e comida”, afirma Tobler.

A avaliação é corroborada por André Valério, do Banco Inter. Segundo o economista, com a totalidade

“Move Brasil e Reforma Casa Brasil não têm atingido o volume de concessões esperado”

Caio Napoleão dos dados setoriais de julho (indústria, serviços e comércio) é possível observar um panorama de atividade enfraquecendo. Para ele, as três pesquisas do IBGE indicam “ambiente moroso de crescimento”, o que reforça a expectativa do banco de continuidade da desaceleração da atividade para o restante do ano, como já visto na divulgação do PIB do segundo trimestre (alta de 0,5% ante 1,1% no primeiro).

“Considerando as atividades pesquisadas, 5 das 7 atividades do varejo restrito apresentaram variação negativa, com destaque para móveis e eletrodomésticos, com queda de 4,9% e maior impacto negativo no resultado total, seguido de outros artigos de uso pessoal e doméstico, com recuo de 2,2%”, diz Valério.

Caio Napoleão, economista da 4Intelligence, afirma que o fim da taxa das blusinhas deve ter influenciado negativamente o desempenho do setor de vestuário. “Nós projetamos alta de 1% em vestuário, e veio uma queda de 2,7%. É a segunda seguida, e acredito que elas estejam relacionadas ao fim da taxa das blusinhas, que impacta qualquer compra superior a US$ 50. O impacto em vestuário é bastante grande”, afirma. O setor de tecidos, vestuário e calçados já vinha em queda de 3,2% em junho.

O imposto de importação federal foi suspenso provisoriamente em 12 de maio por meio de medida provisória e confirmado oficialmente em setembro. O segmento de móveis e eletrodomésticos também foi um dos principais responsáveis pelo desempenho abaixo do esperado do varejo.

“Considerando os desvios, móveis e eletrodomésticos vinham com uma projeção de queda de 2,7%, mas veio uma queda de 4,9% no mês. Olhando o resultado divulgado pelo IBGE, o setor de móveis caiu 2,8%, mas a queda de eletrodomésticos foi de 7%. Essa queda foi muito forte e muito surpreendente”, afirma Napoleão.

Segundo o IBGE, foi a maior queda para móveis e eletrodomésticos (-4,9%) desde dezembro de 2023, quando caiu 6,6%.

“Tenho uma hipótese, que é a questão da Copa do Mundo, que deve ter beneficiado vendas de televisão em maio e junho. E isso acabou porque quem queria comprar já comprou ali. Mas isso não explica tudo, porque 7% em eletrodomésticos é muito forte”, diz.

Napoleão destaca também a resiliência do segmento de supermercados, que tinha uma expectativa de queda maior em julho do que a de 0,2% registrada pelo IBGE. O economista ainda ressalva que a desaceleração da inflação não tem necessariamente impulsionado esse índice. “As vendas para supermercados estão oscilando, alternando altas e baixas independentemente do resultado do IPCA daquele mês.”

O economista também analisa o desempenho do varejo ampliado, que inclui o setor de veículos e motos, partes e peças e também o de material de construção, ambos com alta em julho, de 0,3% e 0,7%, respectivamente.

Para Napoleão, as duas categorias também vieram aquém do esperado, o que teria relação com o baixo desempenho de novos programas de crédito do governo. “O Move Brasil e o Reforma Casa Brasil são programas que notadamente não têm atingido o volume de concessões que era esperado”, afirma.

Até meados deste ano, o Reforma Casa Brasil, que tem alocado R$ 40 bilhões em crédito, utilizou apenas 6,7% do seu orçamento total. Enquanto isso, o Move Brasil destinou cerca de 13,3% dos R$ 30 bilhões em financiamentos destinados para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos novos.

Fonte: Valor econômico.

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